Entrevista a Catarina Furtado

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ANJELIF – O que é para si a beleza?
Catarina Furtado – Essa é daquelas profundas questões que tem várias respostas: a beleza física, a beleza não física… A beleza é como a pintura, há muitas perspetivas, e cada um tem a sua, mas acho que a beleza tem necessariamente a ver com impacto, seja ele qual for. Seja o impacto agradável causado pela harmonia dos traços faciais, pelo mistério ou pela simpatia. O importante é existir qualquer coisa que nos atrai, que funciona como um íman. Beleza é também alguém que se cuide. É importante que as mulheres se cuidem q.b.. Não que tenha de existir uma obsessão com a beleza, mas tem de haver algum cuidado.

ANJELIF – Porquê?
Catarina Furtado – Porque esse cuidado consigo, que pode durar 5 minutos matinais, é qualquer coisa que é visível na relação com os outros, é um bem-estar que se transporta. Se formos simpáticos connosco, é mais natural que sejamos simpáticos com os outros. Se achar que fico bem com uma determinada peça de roupa, depois de a colocar, é natural que me sinta mais confiante.

ANJELIF – Somos permanentemente massacrados com conceitos de beleza…
Catarina Furtado – Sim, conceitos que, de quando em quando, vão sendo alterados, mas no fundo, e como em tudo, andamos numa roda, num círculo que vai variando e volta outra vez ao mesmo lugar. Antigamente, era bela ‘uma mulher mais roliça’. A minha avó dizia-me tristíssima: ‘A menina está a ficar cada vez mais feia, porque está cada vez mais magra’. (risos) A nossa mente está um bocadinho viciada nos conceitos que permanentemente vamos vendo nas revistas. Por que razão uma mulher muito magra, quase anorética, é mais bela do que uma mulher com mais curvas? São rótulos que nos dão, que nos manipulam de alguma forma, e a partir daí passamos a achar – o que é ironicamente curioso – que algo é belo e algo não o é.

ANJELIF – De que maneira a beleza interior interfere com a beleza física?
Catarina Furtado – A beleza interior tem imensa influência na beleza física. Há mulheres que são muito misteriosas e mais reservadas, e essa áurea é convidativa. Por outro lado, qualquer pessoa que esteja zangada com a vida ou consigo, mesmo tendo razões para isso, vai ser, necessariamente, menos bonita, vai ser menos olhada e desejada para comunicar com alguém. E não basta tratar do corpo. Depois de colocarmos creme, fazermos a esfoliação e tratarmos do cabelo – quando há tempo para isso – temos, não só de escolher bem a roupa e os acessórios para o nosso dia, como também colocar o ingrediente final: uma boa atitude. Sempre. E é tão mais fácil encarar o dia olhando para as pessoas dizendo ‘Bom dia!’. Tenho sido sempre assim. Às vezes até sou exageradamente simpática, mas é a minha maneira de ser. Se calhar há pessoas que olham para mim e pensam ‘Que chata, sempre a rir… porquê?’. Porque eu sou assim. Acredito que depois tenho o retorno disso e que é um ganho que tenho na vida.

ANJELIF – Sente-se uma mulher bonita?
Catarina Furtado – Sinto que tenho os meus dias. Confesso que a minha profissão me obriga muitas vezes a ter de fazer essa pergunta, se estou bem e agradável aos olhos dos outros. Não só na televisão, mas também nas revistas e nas sessões fotográficas para ANJELIF, por exemplo. Provavelmente, se não tivesse esta profissão que nos dá alguma escravidão em relação à nossa imagem, não faria estas perguntas tantas vezes. Mas, de facto, eu estou bem. Com mais rugas agora aos 42, com menos elasticidade do que quando fui bailarina clássica e andava noutros voos, mas estou muito bem. Estou a aceitar muito bem a gravidade e a lutar contra ela, de vez em quando, com o que está ao meu alcance.

 

Veja o vídeo da Entrevista:

 

ANJELIF – É mais importante para uma mulher ser ou sentir-se bonita?
Catarina Furtado – É muito mais importante sentir-se bonita. Conheço mulheres que, para mim, são absolutamente lindas do ponto de vista dos traços, mas que depois não transmitem mais nada porque se calhar não estão bem com elas. Acho que é absolutamente determinante uma pessoa sentir-se bem consigo.

ANJELIF – O que pode uma mulher fazer para se sentir bonita?
Catarina Furtado – É fundamental as pessoas fazerem aquilo que gostam em termos profissionais, ainda que as coisas estejam muito difíceis em muitas partes do mundo. Está ao nosso alcance tentarmos e lutarmos, até ao final das nossas vidas, por aquilo que gostamos de fazer. E às vezes deixamos passar tempo de mais a fazer o que não queremos. Claro que nem sempre as pessoas têm possibilidades para enfrentar os seus desafios, porque há muitos medos e inseguranças económicas, mas o fundamental é não passarmos muito tempo a fazer alguma coisa que não gostemos mesmo. Além disso, temos de fazer uma automassagem permanente, temos de tomar conta de nós. E bem. Porque depois é muito mais fácil tomarmos bem conta dos outros, seja dos filhos, namorados, pais ou tios. Esse é também um dos nossos papéis na vida. É o dar e o receber. Porque depois, alguém também tomará conta de nós. Esse tango da vida é o mais fascinante. Por último, diria que para nos sentirmos bonitas temos de fazer um esforço. Eu trabalho imenso e, às vezes, estou absolutamente exausta, mas tenho o privilégio de fazer aquilo que gosto. Isso exige uma disciplina, exige que seja meticulosa e perfeccionista no meu dia a dia, para conseguir conciliar as minhas várias funções. As mulheres têm de ter o seu tempo, têm de se obrigar a tratar de si. Tenho imensas amigas que não o fazem, não põem um blush ou um batom. E quando o fazem, o dia corre-lhes muito melhor. Depois caem na preguiça outra vez, na velocidade das luzes do dia. Têm de contrariar isso. O corpo de cada pessoa é diferente e, por isso, cada um tem de perceber o que lhe assenta… que nem uma luva.

ANJELIF – Isso está ao alcance de todas as mulheres?
Catarina Furtado – Nem de todas, pelo menos da mesma maneira. Em algumas regiões que visito, enquanto embaixadora do fundo das Nações Unidas, para a população há mulheres que são tratadas abaixo das suas potencialidades. São mulheres que não contam para as suas comunidades e países…

ANJELIF – A cosmética influencia a auto-estima das mulheres?
Catarina Furtado – Muito francamente, acho que é um pau de dois bicos. Por um lado, é muito positivo termos acesso a uma série de recursos de cosmética que adiam o curso do tempo, porque a mulher ganha uma esperança média de juventude mais simpática. Mas, por outro lado, é preciso ter a noção exata de onde queremos chegar. É preciso trabalhar o nosso interior, porque não podemos estar permanentemente preocupadas a ser perfeitas e mais jovens… Se o fizermos, esquecemo-nos de que há uma vida para viver, que há o presente para ser vivido. Acredito que esse equilíbrio tem de ser muito bem feito e está associado ao que está à nossa volta. A nossa sanidade mental existe quando há um ambiente estável, no seio da nossa família, amigos e companheiros.

ANJELIF – O papel das mulheres na sociedade ocidental tem vindo a mudar, nomeadamente pela sua emancipação profissional…
Catarina Furtado – Qualquer mulher que tenha funções exigentes a nível profissional e que tenha ambições de ascensão na carreira, tem logo à partida uma penalização que um homem não tem. As mulheres são sempre as mais massacradas em tudo, até na escravidão da beleza. Nós temos de ser boas na nossa profissão, temos de ter bom aspeto, estar bem vestidas, maquilhadas e com o cabelo bem penteado, etc. Essas exigências são feitas às mulheres, e aos homens não – a não ser que esteja drasticamente mal vestido. Se nós o fizermos, como a maior parte das mulheres, é evidente que nos sentimos muito melhor, mais realizadas.

ANJELIF – Considera-se uma mulher ANJELIF?
Catarina Furtado – Sim. Uma mulher que quer manter-se bem, que quer lutar um bocadinho contra a gravidade. Quero manter esta frescura, mas não quero enganar ninguém. Quero manter uma transparência em relação aos outros. Sou muito ativa – não sei o que é ter o ‘botão da atividade’ desligado – adepta da inovação e muito exigente. Gosto que as coisas sejam boas, o que não quer necessariamente dizer que sejam caras. Por isso, sim, considero-me uma mulher ANJELIF.

ANJELIF – Se pudesse resumir o conceito de beleza em apenas algumas palavras, como o definiria?
Catarina Furtado – Para mim a beleza é gostar de gostar. É gostar de dar. A beleza é brilho nos olhos.